26/03/2026

Investigado no caso Master e na Carbono Oculto, fundador da Reag discute delação com o Ministério Público

Por: José Marques Ana Pompeu
Fonte: Folha de S. Paulo
Um dos alvos das investigações relacionadas ao Banco Master, o empresário João
Carlos Mansur decidiu fazer uma delação premiada e negocia os termos do
acordo de colaboração desde o fim do ano passado. Ele procurou o Ministério
Público de São Paulo em novembro e iniciou tratativas para delatar no âmbito
das investigações da Operação Carbono Oculto, que apura a infiltração do PCC
(Primeiro Comando da Capital) em atividades da economia formal.
Mansur era dono da Reag, gestora de fundos de investimento que foi alvo da
operação em agosto do ano passado. Depois, com o avanço das investigações
do caso Master, ele também entrou no radar das apurações relacionadas a Daniel
Vorcaro.
O advogado de Mansur é José Luís Oliveira Lima, conhecido como Juca, o mesmo
contratado por Vorcaro para negociar a sua delação premiada há cerca de duas
semanas. Isso faz com que, nos bastidores, autoridades digam acreditar em uma
delação em conjunto dos dois, a ser negociada com a PGR (Procuradoria-Geral
da República) e a Polícia Federal.
Caso os dois mantenham relatos semelhantes, no mesmo sentido, não haveria
conflito. Cada um assinaria o próprio termo de colaboração.
A opção por uma delação conjunta não é formal, mas combinada entre as
defesas. Eles não podem se contradizer e precisam apresentar a mesma história
às autoridades e se complementarem. Por outro lado, o tamanho dos benefícios
vai depender do quanto cada um entrega em informações e provas e da
gravidade dos crimes imputados a cada um.
Mansur começou a negociar uma delação antes de Vorcaro ser preso, em 17 de
novembro. Quando o ex-banqueiro foi detido, os investigadores da Carbono
Oculto informaram as equipes do caso Master sobre a possibilidade de que
eventual acordo de delação com o dono da Reag poderia citar os mesmos alvos.
A Carbono Oculto apura fraudes, sonegação e lavagem de dinheiro em postos de
combustíveis em um esquema que envolve recursos do PCC. A Reag, segundo os
investigadores, abrigaria fundos que foram usados para esquentar o dinheiro de
atividades criminosas além de ocultar os verdadeiros donos.
A gestora tinha R$ 352 bilhões sob administração em novembro do ano passado,
segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados
Financeiro e de Capitais).
Segundo três pessoas com conhecimento das investigações, Mansur apresentou
uma proposta de colaboração ao Ministério Público Federal em São Paulo, que
não avançou.
A defesa de Mansur procurou integrantes da Procuradoria da República que
atuaram ou auxiliaram nas apurações da Quasar, operação relacionada a alvos
similares aos da Carbono Oculto, mas as discussões foram encerradas ainda em
estágio inicial.
Em novembro do ano passado, a defesa também ofereceu uma sugestão de
acordo ao Ministério Público do Estado de São Paulo, que, por sua vez, levou à
frente as discussões a respeito da colaboração. Esse acordo ainda não foi fechado.
A delação ser feita em âmbito estadual indica que não haveria políticos ou
pessoas mencionadas com foro especial federal —como deputados federais ou
senadores. Além disso, o dinheiro a ser devolvido por meio da negociação
também iria para o estado de São Paulo, por desvios de recursos locais.
A Reag era uma das maiores gestoras independentes –ou seja, sem ligação com
um banco—do país. Mansur deixou o cargo de presidente do Conselho de
Administração em setembro de 2025 para conter a crise criada pela Carbono
Oculto.
Em diversas ocasiões, o empresário negou que houvesse irregularidades no
funcionamento da Reag e, em depoimento neste mês à CPI (Comissão
Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado, ele disse que a empresa tinha
um compliance forte e foi penalizada por ser "grande e independente".
Para a homologação de um acordo, é preciso admitir crimes e apresentar provas
que corroborem a narrativa apresentada aos investigadores.
A Carbono Oculto foi deflagrada em agosto do ano passado junto a outras duas
operações que envolviam a PF: a Tank, no Paraná, e a Quasar, em São Paulo, que
trata de uso de fundos de investimentos em suspeitas de lavagem de dinheiro e
gestão fraudulenta de instituições financeiras.
Em janeiro, Mansur foi um dos alvos da segunda fase da operação Compliance
Zero, que apurou a atuação de fundos de investimentos que teriam sido usados
para inflar o patrimônio do Master.
O caso está sob a responsabilidade da PGR e é supervisionado pelo STF (Supremo
Tribunal Federal), em Brasília.
Logo depois da segunda fase da Compliance Zero, o Banco Central decretou a
liquidação da Reag por "comprometimento da situação econômico-financeira da
corretora, bem como por graves violações às normas que regem as atividades
das instituições integrantes do SFN [sistema financeiro nacional]".
Além de Mansur, as principais delações da Carbono Oculto, que também ainda
não foram fechadas, podem ser as dos empresários foragidos Roberto Augusto
Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o
Primo.
Procurada, a assessoria de imprensa da Reag afirmou que não irá se manifestar
sobre a tentativa de colaboração. Também procurado por mensagens na manhã
desta quarta-feira (25), o advogado de João Carlos Mansur não se manifestou.
Nesta quarta, outro investigado no caso Master trocou de advogados para tentar
fechar acordo de delação: Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. Ele é suspeito de
ser um dos operadores financeiros do ex-dono do banco.
Zettel será agora defendido por Celso Vilardi. Ele capitaneou a defesa de Jair
Bolsonaro na trama golpista, enquanto Juca liderou a do general Braga Netto. Na
ocasião, ambos chegaram a debater teses de defesa para o processo em conjunto
em algumas ocasiões.
As investigações da Carbono Oculto apontaram suspeitas de que a Reag foi
implicada em um esquema criminoso para ocultação de lucros ilícitos por meio
de veículos de investimento há muito utilizados pela elite brasileira devido à sua
discrição e isenções fiscais.
Segundo as autoridades, o esquema investigado envolveu a lavagem de quase
US$ 10 bilhões, atribuída a um dos maiores grupos criminosos do país. O dinheiro
teria sido mascarado por meio de fundos de investimento com um único cotista,
conhecidos como fundos exclusivos, descritos pelos investigadores como
possíveis "fundos de fachada".
Como mostrou a Folha, um relatório do BC enviado ao TCU (Tribunal de Contas
da União) apontou indícios de fraude em operações financeiras realizadas pelo
Master em conjunto com fundos administrados pela Reag Trust Distribuidora de
Títulos e Valores Mobiliários.
De acordo com o documento, as transações suspeitas somariam R$ 11,5 bilhões
e foram consideradas pelo BC como portadoras de "falhas graves", em desacordo
com normas do sistema financeiro nacional. O órgão regulador comunicou o caso
ao Ministério Público Federal.